quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Caminhos XXV

Ela não queria outra coisa se não sumir. Fechar os olhos e entrar dentro de si, mesmo que encontrasse um lugar fétido e podre. Queria fechar seu coração, mais uma vez, e não o abrir mais. Queria sorrir sorrisos alegres e entender as belezas que agora lhe pareciam supérfulas. Queria acreditar. Confiar. Perdoar. Não podia.
Porque os anjos, ou demônios, decidiram brincar novamente com ela? Jogavam dados e decidiam sua sorte... Seu azar. Sentia-se de ressaca musical. Sentia-se de ressaca emocional. Sentia-se imperfeitamente bem. Ou não. Sentia-se impessoal.
O destino a levava por caminhos tortuosos mais uma vez. Viveria mais tempo para reparar? Ou seria esse seu fim? Há muito parte de seu passado lhe começara chamar atenção novamente. Obscuro passado. Por que não?
Ela não queria outra coisa se não sumir para dentro de si.

Caminhos XXIV

Ela era inconstante. Chorava, rangia, temia. Não queria nada se não ouvir uma única música, a mesma rejeitada. Só queria ficar só. Não desejava companhia nenhuma. Livros eram companhias; personagens, amigos. Não era algo que se pudesse chamar de original, ter a companhia apenas de pelúcias inanimadas. Sua vida fora, ou era, a música, e assim se manifestava. Nunca mais.
As moléculas já estavam saturadas, mais ácido carboxílico, talvez, fizesse bem. Poliômios e orações subordinadas. Solenóides viraram gavinhas. Mas onde estava sua atenção? Miragens e fantasmas lhe chamavam atenção. E em seu sonho foi clara a traição. Com um inimigo.
Ela era inconstante. Alegrava-se e entristecia-se. Só queria ouvir sua música. Nunca mais. 'Fazer com que' tudo fosse sentido. Trancava-se em seu mundinho, a bolha que deveria terminar. Deveria. Trancava-se por que era sua trincheira. Sua defesa.
As moléculas foram saturadas. Que diferença faria? Os vícios de linguagem voltariam a existir e a batata inglesa voltaria a ser raiz. Que diferença faria? Ela era inconstante e essa era sua inconstância. Entristecia-se...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Caminhos XXIII

"A única prova de amor que ela queria, era que aceitasse as provas de amor que dava". Cansara e prometera parar com isso, mas era de sua natureza querer expor. Não suportava a idéia de que tivesse vergonha e isso a enojava. Já falara. Cansara disso também. Um balão de gás voando indefeso, pronto para estourar e cair como um trapo de borracha. Sem sentimento. Sem coração.
Criticava tudo. Criticava todos. Imitava. "Des-sentia".
Sonhava com um manual de instruções e aquele que o lera. Ou leria. Sentia náuseas, dores de cabeça e todo e qualquer tipo de mal-estar. Estava abafado dentro de seu coração.
Já não lembrava o propósito com que começara a pensar. Tristeza? Satisfação? O que a chamara mais atenção? Sentimentos inacabados, talvez. Só queria que aceitassem... Ela queria aceitar... Precisava. Mas recebia um "não" como resposta. Talvez fosse vergonha, medo ou falta de coragem. Talvez fosse algo insentido. Falta de sentimento. Falta de... Prometera parar com isso.
Queria um manual de instruções, escrito por ela mesma, sobre ela. E queria um de todos. Sentia náuseas e sua cabeça nem estava mais aí. Já falara e cansara disso. Não suportava a idéia de ver um balão de gás estourado no chão. Como um passarinho azul esmagado no asfalto quente.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Caminhos XXII

Por trás de seus olhos negros poderia se sentir a sensibilidade de sua alma. Ou não. Há muito seu coração parara de bater e agora estava como o pássaro azul no asfalto quente: esmagado. Olhava para o mundo com desdém. Não confiava em ninguém. Não confiava em sua palavra. Olhava para a vida como se fosse única, última. E talvez fosse.
Sua companhia eram desenhos que não reclamavam do que fazia. Capacidade? Talento? Há muito deixara tudo de lado para seguir o que ninguém entende. Não seu coração, nem sua razão. Sim, colocava a culpa no destino. E no futuro. Colocava a culpa em todos, mas preferia as coisas abstratas, por que assim ninguém lhe oporia. Colocava a culpa na vida.
Anjos reclamavam sua ausência e sua traição. Reclamavam a forma como tratava a tudo. Reclamavam. Simplesmente. Seus desenhos não. Figuras de linguagem que não poderiam, nunca, falar.
Em seus olhos negros não se via nada mais que a fria e estúpida vida. Estúpida e inútil vantagem de viver, com um coração imundo e ganancioso, travestido de humildade e socio-poemas. Travestido de pobreza e uma simplicidade que não existia em seus olhos quando via o ouro. Não poderia se sentir a sensibilidade de sua alma, apenas a hipocrisia.

sábado, 6 de novembro de 2010

Caminhos XXI

Ela voltou para casa como se tivesse uma bigorna presa em seu coração. Ela sentiu como se tudo estivesse acabando e temeu, chorou, morreu. Precisava da precisão. Sonhava com toda a tristeza do mundo, mas embalava a felicidade. Morrer talvez fosse algum tipo de saída, mas de que tipo? Anjos e crisântemos enfeitavam talvez um futuro lar. Casa de campo, de praia. Ela imaginava todo tipo de saída enquanto lágrimas rolavam pelo seu rosto, em busca de um coração que não existia.
Ela voltou como se tivesse perdido tudo e em seu semblante tudo havia mudado. Ficara sem rosto. Um espectro em seu desassossego. Uma mentira. Uma loucura. Tentava, em vão, encontrar saída para seu erro. Encontrar solução. De que tipo? Macabra e aterrorizante ou saudável e sincera.
Sentia-se culpada. E era. Tudo acontecia pelo mesmo motivo: seu olhar de ódio em meio às discussões. Sua impaciência e infantilidade.
Ela voltou para casa para tentar fechar-se em seu pequeno mundo, mas tudo que encontrou foram imperfeições. Ela não voltou.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Caminhos XX

"Perdoai-nos e Livrai-nos". Era tudo confuso. Uma hora tudo parecia certo, em outra tudo errado. Nem por isso as lágrimas cessavam. Era esse seu maior problema, talvez: Mudança repentina de humor. Mas como explicar algo inexplicável? A vida era dura. Seus anseios, que há tanto haviam mudado, voltavam a tona. Só pensava em como seria não ter mais nada, como lembrança apenas um último suspiro. Queria que tudo terminasse. Como poderia se começava a ter tudo que sonhara?
Era confuso. Em um momento a conversa era animada e descontraída para então virar uma guerra. Manter a língua entre os dentes não era exatamente sua qualidade. Nem escutar sem revidar. As vezes achava que precisava do caos, para então dar-se conta de que não sobrevivia a ele. E não queria sobreviver. Não lutava para isso. Queria lutar para terminar com tudo que havia de bom e ruim. Queria terminar com os planos do dia, da vida, do futuro. Simplesmente por um ponto final.
Sabia que não haveria aplausos e sim tomates podres arremessados em sua direção, mas a essa altura não fazia diferença. Só queria um basta. Desejava que suas pálpebras caíssem para não se abrirem mais. Problemas? Todo mundo os tinha. "Livrai-nos do fogo do inferno".