terça-feira, 28 de setembro de 2010

Caminhos XII

Melodia. Rima. Poemas. Tudo para ela. Entre quatro paredes, se perguntava (apenas mais uma das tantas vezes), o que a inspirava. Nada, dissera. Mentira. Mas como explicar os caminhos do destino? Sinceridade e gratidão. Desejos concedidos. A mordida da maçã no Paraíso. Não ser castigado. Ela poderia entender a vida, ou fazer-se de entendida. Poderia acreditar em falsos testemunhos, ou fingir acreditar. Fingir ser boba. Ingênua. Precisava de interpretes para que pudessem compreendê-la. E tão fácil... Bastava interpretar.
Gostava das figuras de linguagem. Mas desgostava. Hora sim. Hora não. Assim mesmo, com H. Preferia o silêncio. Amava o caos. Ou amara. Ria das promessas que sabia que não seriam cumpridas. Dos políticos. Entristecia-se com a estupidez do povo em acreditar. Ingenuidade. Ouvia mais que falava. Às vezes. Gostava de observar. Sentia ódio de quase tudo. Amava quase nada. Mas amava a vida. Não acreditava em histórias de piedade e compaixão, nunca havia presenciado uma. Mas o que ainda a fazia viva? Vontade de viver, talvez... Acreditava que algum dia poderia voltar a ter uma vida só dela, fazendo só o que gostava de fazer. Precisava acreditar em algo. Tivera sua escolha. Talvez escolhera mal. Não se arrependera.
Melodia. Poemas. Rimas. Nada de organização em um mundo onde os humanos eram menos humanos que os animais. Não acreditava na "humanidade" dos humanos. Mas, em contrapartida, acreditava na "humanidade" dos animais. E assim vivia. Imaginando humanos animais e animais humanos. Nada a inspirava. Era a verdade. Ou não?

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Caminhos XI

O pecado. E ela mordera a isca como fosse uma maçã. Ou o fruto proibido. Planos de fundo. Do fundo da sua vida. Do espaço. Quem sabe fosse melhor pensar na vida como um jogo. Campo minado. Esse era o seu. Pôneis, unicórnios, cavalos alados... Somente em sua imaginação. Imaginação e imagens. Sonhos e funções. A metalinguagem de sua vida.
Caminhos cruzados. Paralelos. História geográfica do mundo. Deus? Big-Bang? Deus. Plano sublime de ser alguém. Situações passadas. Bombas e Mísseis. Guerra e falta de paz. E ar. Ela morde a isca como se fosse um fruto. Ou pseudofruto. Desculpas indesculpáveis. Ela podia dizer que sabia perdoar, por que, de fato, sabia. Mesmo que as vezes demorasse. Era de coração.
Coração de pedra, lhe disseram. Não, não acreditava. Era sincero o que sentia. Ainda era verdadeiro. Interprete de seu coração, as palavras lhe eram úteis, ao contrário de tantas pessoas que não sabiam o que fazer com elas. Elas eram amigas. Neologista, se considerava.
E o peso da consciência lhe era perturbador. Ainda haviam lágrimas, gosto de cabo de guarda-chuva na boca e nada a fazer. Campo minado. Passo a passo para descobrir o lençol que cobre o futuro. Tentando entender o quão difícil era manter o padrão. Matiz de sua vida.

Caminhos X

Seu maior sonho, talvez fosse mergulhar. Mergulhar fundo na alma das pessoas. No pensamento. Na alegria e na solidão. No vasto oceano, ouvindo apenas o silêncio das bolhas de ar, das nadadeiras dos peixes e talvez algum tipo de sonar. Sentir-se protegida pelo tubo de oxigênio.
O mundo continuaria sendo o caos enquanto ela encontrasse a serenidade. Beleza, angústia. Do fundo do mar não sairiam memórias. Beleza, solidão. O piar e latir das pessoas. Começava a chegar à conclusões. E continuaria sendo inútil.
"Salve, Rainha" os pecados aqui cometidos e veja o sofrimento que abala o coração desses animais. Injustiça. Sempre fora assim. Talvez a 3ª pessoa fosse a verdadeira. A ditadura estava para começar. "A vos brandamos os degredados filhos de Eva". Mãe que nunca conheceu. Que colocou o pecado. A tentação. Pecado. Ela cometia. A sinceridade.
Não queria pensar na profundidade que se metera. Que a perturbava. Profundidade de amor? Ódio? Solidão? Desespero? Queria o mar. Queria o sentimento da vitória da verdade. De conquista. De profundidade só podia querer a gentileza. Talvez isso estivesse fora de moda.
Seu maior sonho era mergulhar. E ainda não sabia onde. Na conquista do oceano? E onde seria o mar que tanto desejava? Continuava sendo inútil tentar chegar à conclusões.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Caminhos IX

Desejava voar. Voar com as próprias asas que em seus sonhos surgiriam em suas costas. Asas de águia, coruja ou pardal. Ela sabia que podia sonhar. Podia ler. Podia desenhar e até escrever, mas nunca encontraria o planejado. Talvez fosse um dos defeitos dela. Planejar e planejar. Gostar do programado. Esperar por uma surpresa. Esperar...
Acreditara que os sonhos eram mágicos. Agora sabia que não eram mais que ilusão. Em seu íntimo cria que nada era em vão. Não tinha certeza. Acreditava nas pessoas que lhe falavam de sentimentos. Desacreditava do silêncio delas. E era essa sua tentação e ao mesmo tempo o que lhe afligia: O silêncio. Procurava a solidão. Fugia da solidão. As pernas pareciam pesadas a cada fuga e ainda mais quando procurava sua companhia. Intimamente sempre desejava a companhia de alguém que lhe agradasse, mas como poderiam saber se fazia de tudo para que se mantivessem fora de seu caminho? Por isso preferia voar. Manter-se longe do chão por muito e muito tempo. Sentir seu corpo flutuando no espaço. Aos poucos a raiva foi transformando-se em lágrimas. Ela queria voar. Ela queria partir as correntes, libertar-se do vácuo. 2ª opção. Sempre fora assim. Esperar por uma surpresa. Talvez as asas estivessem alí, só esperando para surgirem e então por-se em movimento rumo ao infinito. Talvez a vida surpreendesse. Esperava a surpresa. Desejava voar com uma companhia que lhe agradasse.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Caminhos VIII

O sonho era particular. Tanto que ela fazia questão de contar. O pecado fora iniciado graças a tentação e talvez foi o que deu graça a vida. Onde está o silêncio? Anjos tocavam suas trompetas dentro da cabeça dela e os demônios abriam as portas para que ouvisse os gritos das almas desesperadas.
Ele era novo. Uma nova página. Um novo caminho. Um novo Paraíso. Até quando para virar o inferno? Tic-tac. Hora contada. Cronômetros ligados. Até quando para a recuperação da alma perdida? Era nova. Era ingênua. Cedia as tentações e já fora iniciada por elas. Morria aos poucos.
O Éden era onde vivia. Bastava vencer o mal. Bastava evoluir. Sorrir e chorar, viver e morrer, pecados capitais que deviam ser cometidos. Os dons do Espírito Santo. Até onde íam?
"Virgem Maria, rogai por nós" para que possamos suportar a idéia de viver no caos da vida. Onde está o silêncio? Ela só queria a paz. Ninguém tinha a paz. Quem tinha, guerreava para mantê-la. Ironia.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Caminhos VII

Poderia começar, querer compreender. Poderiam achar que a entendiam, mas quem entende o universo? Quem conhece todos mistérios que o oceano abriga? Um inventário de coisas inúteis era a sociedade, pensava ela, só não sabia se podia ter certeza. Até as coisas mais simples tinham seu momento de utilidade. E até as coisas mais úteis tornavam-se um estorvo.
Podia ter certeza que era o mesmo com as pessoas. Indelicadeza? Talvez o mundo lhe fora cruel suficiente para mudar sua tão defendida opinião.
Isso, sua nova ideologia, formava uma ferida cada vez mais profunda em seu peito, e ao mesmo tempo que machucava, era curada incessantemente por aqueles que a adoravam. Inconscientemente.
Ela queria saber o que a movia, mas também tinha medo. O caminho ora era árduo , ora não. E se era apenas ela? Se estivesse sozinha? O sol escondia-se. Também de sua vida. Eram lágrimas de anjos, tristes e felizes, que molhavam a janela.
E quem entende o universo? Anjos fugiram do Paraíso. O casal foi expulso do Éden. E todos ansiavam por um lugar no céu. Quem conhece todos os mistérios que o oceano abriga?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Caminhos VI

Talvez apenas o comentário houvera despertado a vontade nela. Talvez. Na vida dela, nada era certeza, mas sim dúvidas. Ela não se importava. Pudera suportar a vida até então, apenas mais uns anos e estaria livre. Muitos? Poucos? Quem sabe? Rosas murchavam mesmo durante a chuva. Poderia ser um bom sinal, ou um mal agouro como tudo era.
A vida lhe levava. Não que ela não quisesse tomar suas próprias decisões, mas é que sabia que independente das decisões que tomasse, lhe levariam para os lugares que precisaria estar. E quem lhe levava? Seria apenas como um trilho de trem, a vida, que não poderia ser desviado? Ou era um Deus ou Demônio que a induzia?
Gotas e mais gotas de chuva. Quando cansariam de cair? Será que o sol não se cansava de brilhar e jogar raios e mais raios contra a Terra? Ou seria uma miragem?
Fantasmas... Era o que todo mundo era. Faziam-se presentes quando lhe era proveitoso, porém desapareciam nas más horas. Ou seria egoísmos desejar que as pessoas quisessem compartilhar problemas? Talvez tudo fosse em vão. E quando menos se esperasse, o mar se acalmaria novamente, deixando que as ondas se quebrassem naturalmente. Ou talvez essa fosse a prova que deveria ser praticada por todos e assim, poderiam vencer ou, mais provável, perder. Perder uma vida. Só havia a vontade de vencer. Idéias? Nenhuma.

domingo, 19 de setembro de 2010

Caminhos V

Ilusão, sonho ou arrependimento? Talvez nenhum... Talvez todos... Talvez fosse o que ela acreditava. As pelúcias apenas observavam. Talvez acreditassem que poderiam mudar o mundo, mas não poderiam, nunca, mudar a cabeça dela. Era fato. Sem argumentos.
Sua cabeça latejava com problemas e soluções, descrenças e fatos, crenças e provas. Milagres? Não achava que acreditava mais neles. Mas talvez existissem. Perguntas... Pontos de interrogações que não calavam. Sentia-se só. Sentia-se jogada a segundo plano, como tantas e tantas vezes. Sentia-se entediada com a vida, ao mesmo tempo que começava a sentir-se bem vivendo-a. Sentia-se, como tantas vezes acontecera, fora de sua realidade, longe de casa e em um lugar esquisito, que talvez fosse seu próprio quarto. Mas era irreconhecível.
Sentimentalismo? Romantismo? Estavam longe de sua realidade, agora. Antigamente fora... Hoje já não era mais. Sonhos? Ilusões? Planos para um futuro? Nada disso fazia parte de sua vida. Apenas seguia como um barco segue seu rumo... Segundo a correnteza. Seguia como um barco a velas guia-se pelo vento.
A chama apagara-se. Ficara sem oxigênio. Fora embora... Ilusão, sonho ou arrependimento? Talvez tudo... Talvez nada.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Caminhos IV

Ela sabia que estava chegando o fim. Iria sentir saudades? Mudaria para melhor? Não sabia dizer. O tempo e o destino a instruiriam. Era sua única certeza. Enquanto sentava embaixo do ipê, imaginava o quanto fora feliz... E triste... Mas talvez tivesse tido mais felicidades que tristezas. Não poderia saber. Assim como não sabia várias e várias coisas de sua própria vida. O que a reservava? Só o destino saberia...
Ela não entendia a semelhança que havia entre o dia e a noite, a luz e as sombras, a vida e a morte. Paradoxos cheio de diferenças, mas completamente iguais. Ela não entendia. Não entendia que um não poderia existir sem o outro. Coincidência? Acaso? Destino? Talvez os espectros soubessem melhor. Mas eles não falavam. E enquanto não falassem deveria seguir como sempre. Sozinha, fingindo estar acompanhada.
Na verdade ela sentia como se tudo fosse uma fraude. Talvez a vida fosse. Talvez nada fosse real e a qualquer momento ela poderia acordar em um lugar em que não lembrava onde ou o que era. Talvez, somente talvez, fosse tudo um sonho ou uma ilusão de ótica.
O ipê se queixava. Ela se queixava. Nada na vida era oportuno. As pessoas se queixavam. Tudo era ruim. Tudo sempre estava ruim. Beleza? Bondade? Ternura? Histórias infantis...
E estava chegando o fim. Fim do que? De uma vida? Uma etapa? Uma felicidade? O tempo e o destino a instruiriam.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Caminhos III

Na capela, de joelhos em frente ao altar, ela dizia em pensamento: "Pai, perdoa não ter cumprido a promessa, mas não deixe que meu menino definhe...". Vênus. Talvez fosse para quem precisasse orar. A maior e mais brilhante estrela do céu talvez fosse uma saída para suas angústias. O que será que a vida lhe proporia? Mais uma vez fora deixada. Escolha própria? Não, apenas o destino.
As coisas não falavam por si só. Era ela quem julgava. Coisa inútil. "Dados no ar, lançada está a sorte, de quem será a próxima morte?" Era uma questão de escolha, mas não de escolha pessoal, sim de escolha do destino. A solidão em meio a tanta gente... A tristeza em meio a tanta alegria... O ódio em meio a tanto amor... Qual seria a razão? Não, ela não entendia. "...perdoa não ter cumprido a promessa... não deixe que meu menino definhe...". Tristeza. Culpa. Remorso. Sentimentos que não podia esconder e que lhe jogavam a responsabilidade sobre os ombros.
Ela sabia... Ele era novo... Ele não podia se prender a algo talvez tão duradouro. Mas era o que ela imaginava para a vida. Vida dele. "...não deixe que meu menino definhe...". As escolhas eram dele. Não dela. Em verdade eram dela, mas ele não a respeitava. As escolhas eram dele. A vida não. O destino a regia. Deus? Destino? Anjos da guarda? Espíritos possessores? Só sabia que não era ela. Só sabia que apenas as escolhas eram suas. Não sua vida.
Mais uma vez fora colocada em segundo plano. E só ela sabia o quanto não gostava de se sentir assim. As lágrimas caíam talvez até sem perceber. E talvez, até sem perceber, ela ía notando que não fazia o certo. "...que meu menino definhe...".

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Caminhos II

O cansaço. Seria da vida? Seria da tarde entediante? Seria de mais uma vez olhar-se para dentro e não ver nada do que gostaria. Onde estariam as idéias? Os planos maravilhosos de uma vida que era para ser sua? Onde estaria seu ideal de liberdade e igualdade? Talvez tivessem escondidos. Como em uma porta secreta dentro de seu coração, só esperando para saltar e poderem tomar conta de sua vida. E ela pensava. Seria o destino o comandante de sua vida? Ou seria apenas uma alternativa de fuga para as coisas errôneas?
As portas estavam abertas. E chegava o momento de decisão que fora previsto dois anos atrás. Estaria escolhendo a certa? Certo ou errado, era o caminho a seguir. Ao menos para o começo de sua vida. Mas... E seus planos de liberdade e igualdade, que lhe fizeram tanta companhia em meio a depressão... Onde estariam?
Os sonhos estavam claros. As interpretações nem tanto assim. Falsos anjos e falsos demônios a acompanhavam. O difícil era distingui-los. Mas não impossível. E pouco a pouco eles mesmos iam se revelando. Apostas? Cobranças? Ou apenas cansaço de interpretar? E mais uma vez voltava a ele... Cansaço... Seria da vida? Da tarde entediante? Ou de mais uma vez olhar-se para dentro e não ver nada do que gostaria? Ver tudo mudado? E o que seria essa mudança? Boa? Ruim?
Apenas as portas do destino revelarão.

domingo, 5 de setembro de 2010

Caminhos

E ela não ouvia nada ao seu redor. Era apenas um murmúrio em sua mente e não tinha idéia do que se passava do lado de fora. A tentativa mais uma vez fora falha. E quando, algum dia, daria certo? Era o que impedia sua evolução, o fato de não conseguir completar o objetivo que a trouxera até ali. Mas agora não havia mais o que fazer. Lavava as mãos e limpava nas próprias túnicas. A maçã amarelara.
Os sintomas da desistência foram aparecendo aos poucos. Não menos freqüentes que o da persistência. Desde o início sabia que não seria uma tarefa fácil, mas ninguém avisara do visível perigo. Era uma sátira. Ao seu redor eles riam. Deuses? Anjos? Ou só pessoas com suas fantasias de pecadores? Já não sabia o que eram. Ou o que era... E a pergunta ecoava como um acorde em uma catedral. Ironia. Era o que pensava. Como uma planta pode murchar no Éden?
A resposta era fácil, embora fosse complicada. Como entender a confusão que o mar cria após a tempestade... Era o humor dela, "como fosse uma caixa de Pandora, e impossível de alcançar a esperança". Sempre improvável. A imagem não era a mesma. O sol era encobrido pelas nuvens. Vontade própria? Não, só o destino.