Melodia. Rima. Poemas. Tudo para ela. Entre quatro paredes, se perguntava (apenas mais uma das tantas vezes), o que a inspirava. Nada, dissera. Mentira. Mas como explicar os caminhos do destino? Sinceridade e gratidão. Desejos concedidos. A mordida da maçã no Paraíso. Não ser castigado. Ela poderia entender a vida, ou fazer-se de entendida. Poderia acreditar em falsos testemunhos, ou fingir acreditar. Fingir ser boba. Ingênua. Precisava de interpretes para que pudessem compreendê-la. E tão fácil... Bastava interpretar.
Gostava das figuras de linguagem. Mas desgostava. Hora sim. Hora não. Assim mesmo, com H. Preferia o silêncio. Amava o caos. Ou amara. Ria das promessas que sabia que não seriam cumpridas. Dos políticos. Entristecia-se com a estupidez do povo em acreditar. Ingenuidade. Ouvia mais que falava. Às vezes. Gostava de observar. Sentia ódio de quase tudo. Amava quase nada. Mas amava a vida. Não acreditava em histórias de piedade e compaixão, nunca havia presenciado uma. Mas o que ainda a fazia viva? Vontade de viver, talvez... Acreditava que algum dia poderia voltar a ter uma vida só dela, fazendo só o que gostava de fazer. Precisava acreditar em algo. Tivera sua escolha. Talvez escolhera mal. Não se arrependera.
Melodia. Poemas. Rimas. Nada de organização em um mundo onde os humanos eram menos humanos que os animais. Não acreditava na "humanidade" dos humanos. Mas, em contrapartida, acreditava na "humanidade" dos animais. E assim vivia. Imaginando humanos animais e animais humanos. Nada a inspirava. Era a verdade. Ou não?