quarta-feira, 23 de março de 2011

Fim dos Caminhos

Ela aprendeu a mudar. Aprendeu a amar. Aprendeu a suportar a dor da partida e alegria da chegada. Ela aprendeu a sorrir mais. Aprendeu a conversar. As coisas boas da vida.
Não queria mais sumir de sua existência, não necessitava mais de um esconderijo, não pensava em nada que não fosse o bem. E a companhia. A única coisa que continuava sem entender era o mal da humanidade. Mas esse já lhe era indiferente. Não pensava mais em lágrimas ou bipolaridades. Não queria mais saber dos trilhos do trem. Queria mesmo era sair da linha antes que a máquina passasse por cima dela.
Queria encarar os olhos das pessoas felizes. Queria dividir a tristeza das pessoas tristes. Queria ensiná-las o que aprendeu. Queria fazê-las entender, a qualquer custo, que o motivo da vida era muito mais que casa, roupas, carros e sapatos. Queria viajar, compartilhar, esclarecer dúvidas.
Ela sabia, agora, que nada mais a impedia. Sabia o que queria. Sabia o que fazer. E iria lutar para conseguir. Iria lutar por algo muito maior que ela mesma, por algo que almejava a muito mais tempo que a vida que tinha e que mudança tardia. Iria lutar pela sua felicidade. Iria lutar pela felicidade de quem ama.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Caminhos XXV

Ela não queria outra coisa se não sumir. Fechar os olhos e entrar dentro de si, mesmo que encontrasse um lugar fétido e podre. Queria fechar seu coração, mais uma vez, e não o abrir mais. Queria sorrir sorrisos alegres e entender as belezas que agora lhe pareciam supérfulas. Queria acreditar. Confiar. Perdoar. Não podia.
Porque os anjos, ou demônios, decidiram brincar novamente com ela? Jogavam dados e decidiam sua sorte... Seu azar. Sentia-se de ressaca musical. Sentia-se de ressaca emocional. Sentia-se imperfeitamente bem. Ou não. Sentia-se impessoal.
O destino a levava por caminhos tortuosos mais uma vez. Viveria mais tempo para reparar? Ou seria esse seu fim? Há muito parte de seu passado lhe começara chamar atenção novamente. Obscuro passado. Por que não?
Ela não queria outra coisa se não sumir para dentro de si.

Caminhos XXIV

Ela era inconstante. Chorava, rangia, temia. Não queria nada se não ouvir uma única música, a mesma rejeitada. Só queria ficar só. Não desejava companhia nenhuma. Livros eram companhias; personagens, amigos. Não era algo que se pudesse chamar de original, ter a companhia apenas de pelúcias inanimadas. Sua vida fora, ou era, a música, e assim se manifestava. Nunca mais.
As moléculas já estavam saturadas, mais ácido carboxílico, talvez, fizesse bem. Poliômios e orações subordinadas. Solenóides viraram gavinhas. Mas onde estava sua atenção? Miragens e fantasmas lhe chamavam atenção. E em seu sonho foi clara a traição. Com um inimigo.
Ela era inconstante. Alegrava-se e entristecia-se. Só queria ouvir sua música. Nunca mais. 'Fazer com que' tudo fosse sentido. Trancava-se em seu mundinho, a bolha que deveria terminar. Deveria. Trancava-se por que era sua trincheira. Sua defesa.
As moléculas foram saturadas. Que diferença faria? Os vícios de linguagem voltariam a existir e a batata inglesa voltaria a ser raiz. Que diferença faria? Ela era inconstante e essa era sua inconstância. Entristecia-se...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Caminhos XXIII

"A única prova de amor que ela queria, era que aceitasse as provas de amor que dava". Cansara e prometera parar com isso, mas era de sua natureza querer expor. Não suportava a idéia de que tivesse vergonha e isso a enojava. Já falara. Cansara disso também. Um balão de gás voando indefeso, pronto para estourar e cair como um trapo de borracha. Sem sentimento. Sem coração.
Criticava tudo. Criticava todos. Imitava. "Des-sentia".
Sonhava com um manual de instruções e aquele que o lera. Ou leria. Sentia náuseas, dores de cabeça e todo e qualquer tipo de mal-estar. Estava abafado dentro de seu coração.
Já não lembrava o propósito com que começara a pensar. Tristeza? Satisfação? O que a chamara mais atenção? Sentimentos inacabados, talvez. Só queria que aceitassem... Ela queria aceitar... Precisava. Mas recebia um "não" como resposta. Talvez fosse vergonha, medo ou falta de coragem. Talvez fosse algo insentido. Falta de sentimento. Falta de... Prometera parar com isso.
Queria um manual de instruções, escrito por ela mesma, sobre ela. E queria um de todos. Sentia náuseas e sua cabeça nem estava mais aí. Já falara e cansara disso. Não suportava a idéia de ver um balão de gás estourado no chão. Como um passarinho azul esmagado no asfalto quente.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Caminhos XXII

Por trás de seus olhos negros poderia se sentir a sensibilidade de sua alma. Ou não. Há muito seu coração parara de bater e agora estava como o pássaro azul no asfalto quente: esmagado. Olhava para o mundo com desdém. Não confiava em ninguém. Não confiava em sua palavra. Olhava para a vida como se fosse única, última. E talvez fosse.
Sua companhia eram desenhos que não reclamavam do que fazia. Capacidade? Talento? Há muito deixara tudo de lado para seguir o que ninguém entende. Não seu coração, nem sua razão. Sim, colocava a culpa no destino. E no futuro. Colocava a culpa em todos, mas preferia as coisas abstratas, por que assim ninguém lhe oporia. Colocava a culpa na vida.
Anjos reclamavam sua ausência e sua traição. Reclamavam a forma como tratava a tudo. Reclamavam. Simplesmente. Seus desenhos não. Figuras de linguagem que não poderiam, nunca, falar.
Em seus olhos negros não se via nada mais que a fria e estúpida vida. Estúpida e inútil vantagem de viver, com um coração imundo e ganancioso, travestido de humildade e socio-poemas. Travestido de pobreza e uma simplicidade que não existia em seus olhos quando via o ouro. Não poderia se sentir a sensibilidade de sua alma, apenas a hipocrisia.

sábado, 6 de novembro de 2010

Caminhos XXI

Ela voltou para casa como se tivesse uma bigorna presa em seu coração. Ela sentiu como se tudo estivesse acabando e temeu, chorou, morreu. Precisava da precisão. Sonhava com toda a tristeza do mundo, mas embalava a felicidade. Morrer talvez fosse algum tipo de saída, mas de que tipo? Anjos e crisântemos enfeitavam talvez um futuro lar. Casa de campo, de praia. Ela imaginava todo tipo de saída enquanto lágrimas rolavam pelo seu rosto, em busca de um coração que não existia.
Ela voltou como se tivesse perdido tudo e em seu semblante tudo havia mudado. Ficara sem rosto. Um espectro em seu desassossego. Uma mentira. Uma loucura. Tentava, em vão, encontrar saída para seu erro. Encontrar solução. De que tipo? Macabra e aterrorizante ou saudável e sincera.
Sentia-se culpada. E era. Tudo acontecia pelo mesmo motivo: seu olhar de ódio em meio às discussões. Sua impaciência e infantilidade.
Ela voltou para casa para tentar fechar-se em seu pequeno mundo, mas tudo que encontrou foram imperfeições. Ela não voltou.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Caminhos XX

"Perdoai-nos e Livrai-nos". Era tudo confuso. Uma hora tudo parecia certo, em outra tudo errado. Nem por isso as lágrimas cessavam. Era esse seu maior problema, talvez: Mudança repentina de humor. Mas como explicar algo inexplicável? A vida era dura. Seus anseios, que há tanto haviam mudado, voltavam a tona. Só pensava em como seria não ter mais nada, como lembrança apenas um último suspiro. Queria que tudo terminasse. Como poderia se começava a ter tudo que sonhara?
Era confuso. Em um momento a conversa era animada e descontraída para então virar uma guerra. Manter a língua entre os dentes não era exatamente sua qualidade. Nem escutar sem revidar. As vezes achava que precisava do caos, para então dar-se conta de que não sobrevivia a ele. E não queria sobreviver. Não lutava para isso. Queria lutar para terminar com tudo que havia de bom e ruim. Queria terminar com os planos do dia, da vida, do futuro. Simplesmente por um ponto final.
Sabia que não haveria aplausos e sim tomates podres arremessados em sua direção, mas a essa altura não fazia diferença. Só queria um basta. Desejava que suas pálpebras caíssem para não se abrirem mais. Problemas? Todo mundo os tinha. "Livrai-nos do fogo do inferno".

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Caminhos XIX

Seria isso a exaustão de sentimento? Aceitar o própria droga que salva e mata. Seria a dose certa? Tentava entender pontos indecifráveis como a química. Radicais de metila. Talvez pudesse simplificar as palavras e constar o significados de suas expressões em um único Aurélio, e talvez fosse esse o problema: queria que pensassem, que entendessem, que ligassem fatos.
Era sim, a exaustão, de sentimento. Sempre com o mesmo ponto final. Anéis aromáticos sem ligações pi. Paradoxo. Olhava para os lados, e o que via? Milhares de pessoas que haviam caído em circunstâncias parecidas: seu desapego. Não eram pílulas, e comprimidos não lhe faziam efeito. Precisava de quem estava distante. Dos gritos, dos sorrisos e risadas. Era isso. A falta de palavras. Pronome pessoal, oblíquo e verbo não eram o suficiente. Necessitava de mais, sempre mais. Desapego.
Sempre necessitara de gavinhas. E as tinha em si mesma. Necessitava nos outros. Mas a dose certa. Seria essa? Mas era o que era. A falta de palavras para completar uma frase. Para responder perguntas com sinceridade. E de quem esperava as respostas, recebia mais dúvidas. Incomodava-se com os radicais de metila, etila e alguns de fenila (os mais preocupantes). Necessitava retirar da cadeia principal.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Caminhos XVIII

Esperava e não podia disfarçar. Sentia que esperava demais algo que nunca acontecia. Perdoava. Queria o mistério, a surpresa, o inesperado. Não o tinha. Tivera, certa vez, tanto tempo que custava a se lembrar. Tivera o que quisera e jogara fora. Arrependia-se, de certa forma. Esperava algo que pudesse compartilhar: alegria.
O que poderia querer, além do que já tinha? Só palavras. Palavras de bom tom e gosto. A alegria. Queria que tudo acontecesse, mas talvez tivera dado muitas oportunidades e só sem elas ocorreria. "Acorde, criança, ou o sol não irá nascer". Ela pensava. Ela sorrira. Ela sentira. Ela queria o bem, e desejava o mal. Sonhara e sentira falta da verdade. Batera de cabeça no chão.
Queria perder o mal hábito de acreditar. De esperar. Cachos e mais cachos de preocupações, como se fossem uvas. Luvas. Sentimentos que poderia guardar e esconder. Não conseguia. Não queria. Não gostava. Só desejava entender a humanidade, a paixão e a ordem de espera. Talvez não fosse assim. Talvez tudo que pudesse acreditar era na realidade e não em filmes de romance barato. Sonhava e sentia falta da verdade, da razão, do comprometimento. Batia a cabeça no chão. Todo dia.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Caminhos XVII

Imaginava se algum dia alguém entenderia a falta que seu mundo fazia a ela, "seu" mundo. Se algum dia iriam entendê-la e dizer "vá, voe para ele". Talvez fosse a ilusão que lhe atormentava todas as manhãs. Diferenciava real de abstrato, mas talvez fosse aquele a sua realidade. Não, não era. Queria que fosse.
Permitia extasiar-se e ficar admirando seus devaneios. O que era mais importante? A vida? Os sonhos? O sentimento de que sentira enquanto lá vivera? Não sabia. E talvez tivessem razão quando acusaram-na de não saber o que queria da vida. Essa era a verdade. Preferia estar ora lutando contra a corrente, ora sentindo-se livre para deixar-se levar. Preferia mudar, viver em constante metamorfose. Sobreviver. Mas nunca fugindo dos seus ideais. Nunca lutando contra eles. Sentia-se lesada ao falar do que vivera, pois seu mundo não poderia ser explicado, somente vivido. E não entendia como conseguira explicar e parecer que fora uma boa vida, apenas com palavras. Necessitava mostrar. Não podia.
Sentia que o destino lhe colocava a prova. Poderia entender ou voltar. Preferira entender, era a decisão mais sensata a tomar. Mais coerente. Mas o que queria mesmo era voltar. "Vá, voe para ele", voltar para os céus e o mar. Voltar para sua imaginação. Viver somente de seus devaneios. Mas entendera e o destino que lhe levava.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Caminhos XVI

Panos e trapos. Notava que havia passado os tempos em que podia esconder-se atrás deles. Dizer-se inocente e revogar a culpa. Sabia e sentia que necessitava cuidar-se mais, confiar menos e entender. Chegava o tempo da paciência. E dos sonhos. Talvez fosse o momento de sonhar mais que entender. Ou não. Da última vez que sonhara, passara meses imaginando se sua vida poderia voltar a ser como no sonho. Não podia. Por mais que se tenta dormir e voltar ao mesmo sonho, nunca se consegue. E ela ficara na expectativa. Remexera-se na cama e criara situações que poderiam ter ocorrido. Mas todas com seu consciente.
Bandeiras batiam-se com o vento. Viravam trapos. Ela não poderia fazer nada, a não ser observar o alto do mastro. Não era hipócrita. Jamais mentira se não tivesse sido para o bem. Considerava uma qualidade o saber quando falar a verdade. Via a felicidade acima de todas as coisas e não entendia o sentido de fazer algo que fizesse mal. Autodestruição, talvez.
Panos, trapos, pratos e cacos. Quem poderia consertar? Talvez uma nova ilusão, novo sonho ou a bela realidade. E como distingui-los? Ela não sabia. Talvez fosse apenas sentir e sonhar. Não podia revogar a culpa. Cristal quebrado era impossível de colar sem deixar marcas.

sábado, 9 de outubro de 2010

Caminhos XV

Uma vela queimando. Imaginava ela como fosse sua vida. Queimava e queimava... Diminuía a cada momento, mas provocava luz. Luz que sumia na escuridão, mas iluminava parte do espaço. Estranhamente ela tinha certeza que sua vida era como uma vela. Aos poucos terminava, mas era só o pavio. A cera continuava lá, líquida, pronta para um novo pavio e começar novamente. Sua vida. Terminava e começava, tantas e tantas vezes que já nem se lembrava. Cigana, carrasca, princesa, plebéia. Não sabia.
Tudo mudava, mas ao mesmo tempo continuava igual. Tudo poderia mudar definitivamente se ela cometesse os erros que havia tentado cometer. Pioraria. Não! Não queria pensar nisso. Mas ao mesmo tempo sentia-se tentada pelo desconhecido. Seria irresponsável. Ou seria um ato que ela praticaria.
Lembrava de coisas do passado. Brigas e felicidades. Lembrava do presente. E seus embrulhos, laços e fitas. E no futuro. As surpresas. As felicidades e tristezas que viriam. Sentia o pesadelo de estar lutando com alguém que tinha proteção de um amigo. Imaginava uma vela queimando. Talvez o pavio estivesse no fim. Ou não. Diminuía a cada momento, mas provocava luz.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Caminhos XIV

Uma pessoa que se dá. Era o que era ela. Não Ela. Uma 4ª pessoa. E ela, a 3ª pessoa, já passava dos limites, inventava adjetivos, qualidades e defeitos, enxergava o inalcançável. Uma pessoa que se dá sem cobrar. Ou cobrando. Não sabia. O que lhe podia valer? Inimizade e euforia. Sinestésico.
Hiperbolava um super plano. Que talvez, como tantos, não saísse do papel. "O futuro muda a cada vez que olhamos para ele. Só pelo fato de olhar." Tinham-lhe dito. Era o presente. Era a surpresa. Era o que era pra deixar a vida mais divertida. Deixava? Nem sempre gostava de surpresas. Gostava da III Lei de Newton. Lhe era útil para explicar seus atos. Chocolate branco, meio-amargo, lhe fazia bem. E como fazia. Mastigadas dolorosas. Gosto nauseante. Intoxicação alimentar.
Desejava o mal. Não era hipócrita em não admitir. Desejava o mal de que precisassem dela. O máximo que podia desejar. O máximo que a crença lhe permitia. Não tinha intenção de ser um Caim da família. Antes Abel.
Era essa sua preferência. Morrer a matar. Matava só de sentimentos que as pessoas mesmas causavam nelas. "O futuro muda a cada vez..." Talvez fosse disso que precisava. Mudança. Começando pelas atitudes. Seria pra melhor? Pior? Não sabia. Só sabia que era aí que começava. "Só pelo fato de olhar." a uma pessoa que se dá. Era seu pensamento.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Caminhos XIII

Talvez fosse amor, o que sentia. Talvez fosse o mesmo que sentiam por ela. Tocava, tocava, desligava. Sempre. Impossível dizer o que seguia o devaneio de estar. Injustiça por parte dela? Descuido de quem a cuidava? As vezes sentia que sentia inveja dos românticos. Um dia fora um deles. O tempo não permitia mais. Não muito. A água secara e no lugar sobrou a erosão e a escassez que o sol trouxera. Era como se fosse errado, e só o que fazia era olhar páginas que já não eram tão usuais. Medo do atrito? Mas não deixava de caminhar. E não sabia a direção. As vezes, simplesmente, desconfiava.
Várias e várias páginas falando sobre sentimentos. Não por ela. Por outra pessoa. Talvez não estivesse na hora. Hora de cair e ser esmagado pelo trem. Forte, não? Pensava ela que um dia pudesse vir a ser ou estar. Verbo To Be. Engraçado que não era. Confuso? Talvez. A vida era confusa. O destino era confuso. E se não existisse, era mais confuso ainda.
Via lágrimas no riso de outras pessoas. Na paixão. No amor. Tudo por que era diferente. Via lágrimas onde havia felicidade. Talvez as lágrimas que via fossem de alegria. Tocava, tocava, desligava. Seu coração era assim. Batia, batia e se apagava.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Caminhos XII

Melodia. Rima. Poemas. Tudo para ela. Entre quatro paredes, se perguntava (apenas mais uma das tantas vezes), o que a inspirava. Nada, dissera. Mentira. Mas como explicar os caminhos do destino? Sinceridade e gratidão. Desejos concedidos. A mordida da maçã no Paraíso. Não ser castigado. Ela poderia entender a vida, ou fazer-se de entendida. Poderia acreditar em falsos testemunhos, ou fingir acreditar. Fingir ser boba. Ingênua. Precisava de interpretes para que pudessem compreendê-la. E tão fácil... Bastava interpretar.
Gostava das figuras de linguagem. Mas desgostava. Hora sim. Hora não. Assim mesmo, com H. Preferia o silêncio. Amava o caos. Ou amara. Ria das promessas que sabia que não seriam cumpridas. Dos políticos. Entristecia-se com a estupidez do povo em acreditar. Ingenuidade. Ouvia mais que falava. Às vezes. Gostava de observar. Sentia ódio de quase tudo. Amava quase nada. Mas amava a vida. Não acreditava em histórias de piedade e compaixão, nunca havia presenciado uma. Mas o que ainda a fazia viva? Vontade de viver, talvez... Acreditava que algum dia poderia voltar a ter uma vida só dela, fazendo só o que gostava de fazer. Precisava acreditar em algo. Tivera sua escolha. Talvez escolhera mal. Não se arrependera.
Melodia. Poemas. Rimas. Nada de organização em um mundo onde os humanos eram menos humanos que os animais. Não acreditava na "humanidade" dos humanos. Mas, em contrapartida, acreditava na "humanidade" dos animais. E assim vivia. Imaginando humanos animais e animais humanos. Nada a inspirava. Era a verdade. Ou não?

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Caminhos XI

O pecado. E ela mordera a isca como fosse uma maçã. Ou o fruto proibido. Planos de fundo. Do fundo da sua vida. Do espaço. Quem sabe fosse melhor pensar na vida como um jogo. Campo minado. Esse era o seu. Pôneis, unicórnios, cavalos alados... Somente em sua imaginação. Imaginação e imagens. Sonhos e funções. A metalinguagem de sua vida.
Caminhos cruzados. Paralelos. História geográfica do mundo. Deus? Big-Bang? Deus. Plano sublime de ser alguém. Situações passadas. Bombas e Mísseis. Guerra e falta de paz. E ar. Ela morde a isca como se fosse um fruto. Ou pseudofruto. Desculpas indesculpáveis. Ela podia dizer que sabia perdoar, por que, de fato, sabia. Mesmo que as vezes demorasse. Era de coração.
Coração de pedra, lhe disseram. Não, não acreditava. Era sincero o que sentia. Ainda era verdadeiro. Interprete de seu coração, as palavras lhe eram úteis, ao contrário de tantas pessoas que não sabiam o que fazer com elas. Elas eram amigas. Neologista, se considerava.
E o peso da consciência lhe era perturbador. Ainda haviam lágrimas, gosto de cabo de guarda-chuva na boca e nada a fazer. Campo minado. Passo a passo para descobrir o lençol que cobre o futuro. Tentando entender o quão difícil era manter o padrão. Matiz de sua vida.

Caminhos X

Seu maior sonho, talvez fosse mergulhar. Mergulhar fundo na alma das pessoas. No pensamento. Na alegria e na solidão. No vasto oceano, ouvindo apenas o silêncio das bolhas de ar, das nadadeiras dos peixes e talvez algum tipo de sonar. Sentir-se protegida pelo tubo de oxigênio.
O mundo continuaria sendo o caos enquanto ela encontrasse a serenidade. Beleza, angústia. Do fundo do mar não sairiam memórias. Beleza, solidão. O piar e latir das pessoas. Começava a chegar à conclusões. E continuaria sendo inútil.
"Salve, Rainha" os pecados aqui cometidos e veja o sofrimento que abala o coração desses animais. Injustiça. Sempre fora assim. Talvez a 3ª pessoa fosse a verdadeira. A ditadura estava para começar. "A vos brandamos os degredados filhos de Eva". Mãe que nunca conheceu. Que colocou o pecado. A tentação. Pecado. Ela cometia. A sinceridade.
Não queria pensar na profundidade que se metera. Que a perturbava. Profundidade de amor? Ódio? Solidão? Desespero? Queria o mar. Queria o sentimento da vitória da verdade. De conquista. De profundidade só podia querer a gentileza. Talvez isso estivesse fora de moda.
Seu maior sonho era mergulhar. E ainda não sabia onde. Na conquista do oceano? E onde seria o mar que tanto desejava? Continuava sendo inútil tentar chegar à conclusões.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Caminhos IX

Desejava voar. Voar com as próprias asas que em seus sonhos surgiriam em suas costas. Asas de águia, coruja ou pardal. Ela sabia que podia sonhar. Podia ler. Podia desenhar e até escrever, mas nunca encontraria o planejado. Talvez fosse um dos defeitos dela. Planejar e planejar. Gostar do programado. Esperar por uma surpresa. Esperar...
Acreditara que os sonhos eram mágicos. Agora sabia que não eram mais que ilusão. Em seu íntimo cria que nada era em vão. Não tinha certeza. Acreditava nas pessoas que lhe falavam de sentimentos. Desacreditava do silêncio delas. E era essa sua tentação e ao mesmo tempo o que lhe afligia: O silêncio. Procurava a solidão. Fugia da solidão. As pernas pareciam pesadas a cada fuga e ainda mais quando procurava sua companhia. Intimamente sempre desejava a companhia de alguém que lhe agradasse, mas como poderiam saber se fazia de tudo para que se mantivessem fora de seu caminho? Por isso preferia voar. Manter-se longe do chão por muito e muito tempo. Sentir seu corpo flutuando no espaço. Aos poucos a raiva foi transformando-se em lágrimas. Ela queria voar. Ela queria partir as correntes, libertar-se do vácuo. 2ª opção. Sempre fora assim. Esperar por uma surpresa. Talvez as asas estivessem alí, só esperando para surgirem e então por-se em movimento rumo ao infinito. Talvez a vida surpreendesse. Esperava a surpresa. Desejava voar com uma companhia que lhe agradasse.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Caminhos VIII

O sonho era particular. Tanto que ela fazia questão de contar. O pecado fora iniciado graças a tentação e talvez foi o que deu graça a vida. Onde está o silêncio? Anjos tocavam suas trompetas dentro da cabeça dela e os demônios abriam as portas para que ouvisse os gritos das almas desesperadas.
Ele era novo. Uma nova página. Um novo caminho. Um novo Paraíso. Até quando para virar o inferno? Tic-tac. Hora contada. Cronômetros ligados. Até quando para a recuperação da alma perdida? Era nova. Era ingênua. Cedia as tentações e já fora iniciada por elas. Morria aos poucos.
O Éden era onde vivia. Bastava vencer o mal. Bastava evoluir. Sorrir e chorar, viver e morrer, pecados capitais que deviam ser cometidos. Os dons do Espírito Santo. Até onde íam?
"Virgem Maria, rogai por nós" para que possamos suportar a idéia de viver no caos da vida. Onde está o silêncio? Ela só queria a paz. Ninguém tinha a paz. Quem tinha, guerreava para mantê-la. Ironia.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Caminhos VII

Poderia começar, querer compreender. Poderiam achar que a entendiam, mas quem entende o universo? Quem conhece todos mistérios que o oceano abriga? Um inventário de coisas inúteis era a sociedade, pensava ela, só não sabia se podia ter certeza. Até as coisas mais simples tinham seu momento de utilidade. E até as coisas mais úteis tornavam-se um estorvo.
Podia ter certeza que era o mesmo com as pessoas. Indelicadeza? Talvez o mundo lhe fora cruel suficiente para mudar sua tão defendida opinião.
Isso, sua nova ideologia, formava uma ferida cada vez mais profunda em seu peito, e ao mesmo tempo que machucava, era curada incessantemente por aqueles que a adoravam. Inconscientemente.
Ela queria saber o que a movia, mas também tinha medo. O caminho ora era árduo , ora não. E se era apenas ela? Se estivesse sozinha? O sol escondia-se. Também de sua vida. Eram lágrimas de anjos, tristes e felizes, que molhavam a janela.
E quem entende o universo? Anjos fugiram do Paraíso. O casal foi expulso do Éden. E todos ansiavam por um lugar no céu. Quem conhece todos os mistérios que o oceano abriga?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Caminhos VI

Talvez apenas o comentário houvera despertado a vontade nela. Talvez. Na vida dela, nada era certeza, mas sim dúvidas. Ela não se importava. Pudera suportar a vida até então, apenas mais uns anos e estaria livre. Muitos? Poucos? Quem sabe? Rosas murchavam mesmo durante a chuva. Poderia ser um bom sinal, ou um mal agouro como tudo era.
A vida lhe levava. Não que ela não quisesse tomar suas próprias decisões, mas é que sabia que independente das decisões que tomasse, lhe levariam para os lugares que precisaria estar. E quem lhe levava? Seria apenas como um trilho de trem, a vida, que não poderia ser desviado? Ou era um Deus ou Demônio que a induzia?
Gotas e mais gotas de chuva. Quando cansariam de cair? Será que o sol não se cansava de brilhar e jogar raios e mais raios contra a Terra? Ou seria uma miragem?
Fantasmas... Era o que todo mundo era. Faziam-se presentes quando lhe era proveitoso, porém desapareciam nas más horas. Ou seria egoísmos desejar que as pessoas quisessem compartilhar problemas? Talvez tudo fosse em vão. E quando menos se esperasse, o mar se acalmaria novamente, deixando que as ondas se quebrassem naturalmente. Ou talvez essa fosse a prova que deveria ser praticada por todos e assim, poderiam vencer ou, mais provável, perder. Perder uma vida. Só havia a vontade de vencer. Idéias? Nenhuma.

domingo, 19 de setembro de 2010

Caminhos V

Ilusão, sonho ou arrependimento? Talvez nenhum... Talvez todos... Talvez fosse o que ela acreditava. As pelúcias apenas observavam. Talvez acreditassem que poderiam mudar o mundo, mas não poderiam, nunca, mudar a cabeça dela. Era fato. Sem argumentos.
Sua cabeça latejava com problemas e soluções, descrenças e fatos, crenças e provas. Milagres? Não achava que acreditava mais neles. Mas talvez existissem. Perguntas... Pontos de interrogações que não calavam. Sentia-se só. Sentia-se jogada a segundo plano, como tantas e tantas vezes. Sentia-se entediada com a vida, ao mesmo tempo que começava a sentir-se bem vivendo-a. Sentia-se, como tantas vezes acontecera, fora de sua realidade, longe de casa e em um lugar esquisito, que talvez fosse seu próprio quarto. Mas era irreconhecível.
Sentimentalismo? Romantismo? Estavam longe de sua realidade, agora. Antigamente fora... Hoje já não era mais. Sonhos? Ilusões? Planos para um futuro? Nada disso fazia parte de sua vida. Apenas seguia como um barco segue seu rumo... Segundo a correnteza. Seguia como um barco a velas guia-se pelo vento.
A chama apagara-se. Ficara sem oxigênio. Fora embora... Ilusão, sonho ou arrependimento? Talvez tudo... Talvez nada.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Caminhos IV

Ela sabia que estava chegando o fim. Iria sentir saudades? Mudaria para melhor? Não sabia dizer. O tempo e o destino a instruiriam. Era sua única certeza. Enquanto sentava embaixo do ipê, imaginava o quanto fora feliz... E triste... Mas talvez tivesse tido mais felicidades que tristezas. Não poderia saber. Assim como não sabia várias e várias coisas de sua própria vida. O que a reservava? Só o destino saberia...
Ela não entendia a semelhança que havia entre o dia e a noite, a luz e as sombras, a vida e a morte. Paradoxos cheio de diferenças, mas completamente iguais. Ela não entendia. Não entendia que um não poderia existir sem o outro. Coincidência? Acaso? Destino? Talvez os espectros soubessem melhor. Mas eles não falavam. E enquanto não falassem deveria seguir como sempre. Sozinha, fingindo estar acompanhada.
Na verdade ela sentia como se tudo fosse uma fraude. Talvez a vida fosse. Talvez nada fosse real e a qualquer momento ela poderia acordar em um lugar em que não lembrava onde ou o que era. Talvez, somente talvez, fosse tudo um sonho ou uma ilusão de ótica.
O ipê se queixava. Ela se queixava. Nada na vida era oportuno. As pessoas se queixavam. Tudo era ruim. Tudo sempre estava ruim. Beleza? Bondade? Ternura? Histórias infantis...
E estava chegando o fim. Fim do que? De uma vida? Uma etapa? Uma felicidade? O tempo e o destino a instruiriam.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Caminhos III

Na capela, de joelhos em frente ao altar, ela dizia em pensamento: "Pai, perdoa não ter cumprido a promessa, mas não deixe que meu menino definhe...". Vênus. Talvez fosse para quem precisasse orar. A maior e mais brilhante estrela do céu talvez fosse uma saída para suas angústias. O que será que a vida lhe proporia? Mais uma vez fora deixada. Escolha própria? Não, apenas o destino.
As coisas não falavam por si só. Era ela quem julgava. Coisa inútil. "Dados no ar, lançada está a sorte, de quem será a próxima morte?" Era uma questão de escolha, mas não de escolha pessoal, sim de escolha do destino. A solidão em meio a tanta gente... A tristeza em meio a tanta alegria... O ódio em meio a tanto amor... Qual seria a razão? Não, ela não entendia. "...perdoa não ter cumprido a promessa... não deixe que meu menino definhe...". Tristeza. Culpa. Remorso. Sentimentos que não podia esconder e que lhe jogavam a responsabilidade sobre os ombros.
Ela sabia... Ele era novo... Ele não podia se prender a algo talvez tão duradouro. Mas era o que ela imaginava para a vida. Vida dele. "...não deixe que meu menino definhe...". As escolhas eram dele. Não dela. Em verdade eram dela, mas ele não a respeitava. As escolhas eram dele. A vida não. O destino a regia. Deus? Destino? Anjos da guarda? Espíritos possessores? Só sabia que não era ela. Só sabia que apenas as escolhas eram suas. Não sua vida.
Mais uma vez fora colocada em segundo plano. E só ela sabia o quanto não gostava de se sentir assim. As lágrimas caíam talvez até sem perceber. E talvez, até sem perceber, ela ía notando que não fazia o certo. "...que meu menino definhe...".

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Caminhos II

O cansaço. Seria da vida? Seria da tarde entediante? Seria de mais uma vez olhar-se para dentro e não ver nada do que gostaria. Onde estariam as idéias? Os planos maravilhosos de uma vida que era para ser sua? Onde estaria seu ideal de liberdade e igualdade? Talvez tivessem escondidos. Como em uma porta secreta dentro de seu coração, só esperando para saltar e poderem tomar conta de sua vida. E ela pensava. Seria o destino o comandante de sua vida? Ou seria apenas uma alternativa de fuga para as coisas errôneas?
As portas estavam abertas. E chegava o momento de decisão que fora previsto dois anos atrás. Estaria escolhendo a certa? Certo ou errado, era o caminho a seguir. Ao menos para o começo de sua vida. Mas... E seus planos de liberdade e igualdade, que lhe fizeram tanta companhia em meio a depressão... Onde estariam?
Os sonhos estavam claros. As interpretações nem tanto assim. Falsos anjos e falsos demônios a acompanhavam. O difícil era distingui-los. Mas não impossível. E pouco a pouco eles mesmos iam se revelando. Apostas? Cobranças? Ou apenas cansaço de interpretar? E mais uma vez voltava a ele... Cansaço... Seria da vida? Da tarde entediante? Ou de mais uma vez olhar-se para dentro e não ver nada do que gostaria? Ver tudo mudado? E o que seria essa mudança? Boa? Ruim?
Apenas as portas do destino revelarão.

domingo, 5 de setembro de 2010

Caminhos

E ela não ouvia nada ao seu redor. Era apenas um murmúrio em sua mente e não tinha idéia do que se passava do lado de fora. A tentativa mais uma vez fora falha. E quando, algum dia, daria certo? Era o que impedia sua evolução, o fato de não conseguir completar o objetivo que a trouxera até ali. Mas agora não havia mais o que fazer. Lavava as mãos e limpava nas próprias túnicas. A maçã amarelara.
Os sintomas da desistência foram aparecendo aos poucos. Não menos freqüentes que o da persistência. Desde o início sabia que não seria uma tarefa fácil, mas ninguém avisara do visível perigo. Era uma sátira. Ao seu redor eles riam. Deuses? Anjos? Ou só pessoas com suas fantasias de pecadores? Já não sabia o que eram. Ou o que era... E a pergunta ecoava como um acorde em uma catedral. Ironia. Era o que pensava. Como uma planta pode murchar no Éden?
A resposta era fácil, embora fosse complicada. Como entender a confusão que o mar cria após a tempestade... Era o humor dela, "como fosse uma caixa de Pandora, e impossível de alcançar a esperança". Sempre improvável. A imagem não era a mesma. O sol era encobrido pelas nuvens. Vontade própria? Não, só o destino.